Diálise Peritoneal

 

É uma opção de tratamento da insuficiência renal crónica (IRC). A IRC é uma doença que não tem cura, mas tem opções de tratamento que permitem substituir a função renal e viver com qualidade de vida.

 

As opções são hemodiálise (HD), diálise peritoneal (DP) e transplante renal (TR) de dador vivo e de dador cadáver. Utilizamos o termo opção porque a pessoa, pode optar por uma destas possibilidades de tratamento, após ter sido informada e esclarecida sobre cada uma, numa consulta, chamada consulta de esclarecimento (norma da saúde nº017/2011). Esta consulta é realizada por uma equipa multidisciplinar, constituída por: nefrologista, enfermeiro, nutricionista e técnico de serviço social. Pretende-se que a pessoa fique consciente sobre os riscos, diferenças, vantagens e desvantagens de cada tratamento.

 

É importante também dar a conhecer à pessoa, que a sua preferência por determinado tratamento, pode não ser possível, por condições clínicas, estilo de vida e características da própria pessoa.

 

Assim como, qualquer que seja a escolha, não tem que ser definitiva; se a pessoa achar que não foi a escolha  acertada, ou  o médico considerar que o tratamento não tem os resultados esperados, existe a possibilidade de mudar a modalidade de tratamento.

Se a pessoa optar por Diálise Peritoneal e a sua condição permitir, vai precisar de colocar um cateter peritoneal. O cateter é colocado no bloco operatório, normalmente com anestesia local e em regime ambulatório, ou seja, regressa a casa no próprio dia. Este cateter é colocado no abdómen e vai permitir utilizar a membrana  peritoneal (membrana que envolve os  órgãos abdominais). O cateter vai ficar exteriorizado (um pequeno tubinho) num dos lados do abdómen, abaixo da linha umbilical. A parte externa do cateter deverá ser fixa, no sentido de evitar repuxões e o orifício (local de saída do cateter) fica  protegido por um penso que será realizado diariamente, pela pessoa, após ensino e treino pela equipa de enfermagem.

 

A membrana peritoneal – peritoneu -  vai funcionar como um filtro, com a introdução do líquido de diálise (dialisante), no abdómen e vai permitir que os produtos tóxicos que circulam em excesso no sangue, passem para o liquido de tratamento , através de diferentes concentrações entre eles.

 

 Esta modalidade é uma técnica relativamente simples e muito eficaz, flexível e adaptável, sendo considerada como tratamento de primeira linha para muitos doentes.

 

Existem dois métodos de fazer DP: Diálise peritoneal  contínua ambulatório (DPCA) e diálise peritoneal  automatizada (DPA). Ambas são eficazes e são facilmente executadas pela pessoa após poucos dias de aprendizagem com a equipa de enfermagem. No entanto preconiza-se que se optar por DPA, a pessoa primeiro deverá dominar a técnica da DPCA.

 

A DPCA é realizada durante o dia. É colocado dialisante no abdómen,  permanecendo lá cerca de 4 horas, findo este período, é retirado e colocado novo. Durante o período de permanência, a solução de diálise através do processo de osmose, vai absorver a maioria das toxinas (creatinina e ureia), assim como a água em excesso. Habitualmente são realizados 3 a 5 tratamentos por dia (também denominados de trocas), sendo que cada troca demora em média 20 a 30 minutos. Os horários são estabelecidos de acordo com a rotina e atividade da pessoa, mas os preferíveis são ao acordar, ao almoço, meio da tarde e ao deitar, no caso de 4 trocas. O médico é quem determina o número de trocas diárias, e o tempo entre elas é ocupado pelas atividades normais da pessoa

 

A DPA é normalmente realizada de noite e as trocas são realizadas por uma máquina, denominada cicladora. As trocas têm uma duração entre 8 a 10 horas, consoante a prescrição, e ocorrem durante o sono/descanso da pessoa. A pessoa antes de deitar conecta-se ao sistema de diálise através do seu cateter e de manhã tem o seu tratamento feito, desconecta-se e tem o dia livre.

 

O material necessário para a realização do tratamento, DPCA ou DPA, é todo fornecido à pessoa de forma gratuita e entregue no seu domicílio.

 

É muito importante, na DP, cuidados de higiene da pessoa e do local escolhido, para a realização do tratamento, uso de máscara e lavagem adequada das mãos. Todos estes cuidados fazem parte do processo de aprendizagem da pessoa. 

 

A vigilância da pessoa é realizada por consultas mensais onde são realizadas análises ao sangue, urina e líquido peritoneal. Para a consulta também é importante levar os registos diários do seu peso e da tensão arterial, assim como os dados relativos ao seu tratamento. A avaliação de todos estes dados são essenciais para determinar a eficácia do seu tratamento.  

 

Esta modalidade (DP), assim como as outras, tem vantagens e desvantagens. Importa também lembrar que uma vantagem para uma pessoa pode ser considerada desvantagem para outra, dependendo da sua condição, atividade profissional e estilo de vida;

 

VANTAGENS:

  • Técnica fácil de realizar.

  • Bem tolerada pela pessoa.

  • Realizada no domicílio ou outro local (quando necessário) desde que limpo.

  • Fazer diálise enquanto dorme (DPA).

  • Ingestão de líquidos mais livre.

  • Permite um consumo mais variado de alimentos.

  • Flexibilidade de horários.

  • Autonomia para a realização do tratamento (com excepção de quem necessita de cuidador).

  • Mais fisiológica, uma vez que é contínua.

  • Proteção de todo o sistema circulatório.

  • É possível transportar o material para o tratamento e faze-lo noutro local, desde que limpo.

  • Registo automático dos dados de tratamento (DPA).

  • Deslocação ao hospital só para as consultas.

 

DESVANTAGENS

  • Tratamento diário. 

  • Tratamento várias vezes/dia (DPCA).

  • Cateter exteriorizado no abdómen.

  • Necessidade de espaço em casa para guardar todo o material fornecido.

  • Necessita de um período de ensino e treino da técnica.

  • Tem que assumir a responsabilidade pelo seu tratamento.

  • Registos diários dos dados de tratamento (DPCA).

  • Podem surgir complicações como hérnias, dor nos ombros e/ou abdómen, devido à pressão exercida pelo líquido de tratamento, no abdómen.

  • Risco de infecção do orifício de saída do cateter, do túnel (percurso do cateter) e do peritoneu - a chamada peritonite que é considerada a complicação mais grave.

 

É importante referir que o sucesso do tratamento em DP, é conseguido com o empenho e motivação da própria pessoa e da relação próxima com toda a equipa clínica, em especial com os enfermeiros.

 

O acompanhamento pela equipa de enfermagem é permanente, pode e deve contactar a equipa, sempre que ocorram dúvidas, receios, dificuldades, questões, mesmo as que lhe pareçam pouco importantes.

 

Concluindo, esta relação próxima com os profissionais de enfermagem tem o propósito de tornar a pessoa mais segura, autónoma e confiante, requisitos essenciais para o sucesso do tratamento e felicidade da pessoa.

Referências Bibliográficas:

[1]. THOMAS, Nicola (2002). Enfermagem em nefrologia, Loures ISBN: 972-8383-85-1

[2]. O seu guia de DP – Informação terapêutica, Maia: Fresenius Medical Care

[3]. Norma da Direcção Geral da Saúde – Tratamento conservador médico da insuficiência renal crónica estadio 5, nº 017/2011 de 28/9/2011

Publicado: Celia | 2018-05-14 10:41 Última atualização: 2018-05-14 12:31:55 Fonte: Tags : Diálise Peritoneal
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Célia Silva

 

      Enfermeira no Serviço de Diálise - Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra Polo HG

 

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