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Hemodiálise noturna em clínicas está em expansão em Portugal, seguindo a tendência europeia. Vários centros de diálise no país mantêm as portas abertas durante a noite aos hemodialisados que não querem perder pitada do dia de trabalho, do estudo e ou convívio familiar. Saiba quais os benefícios e os inconvenientes desta opção de tratamento da insuficiência renal e o que os investigadores descobriram sobre esta modalidade.

A ideia de ser hemodialisado durante o período noturno – seis a oito horas, enquanto se dorme – não é nova. Uma outra alternativa, embora residual em Portugal, é a diálise peritoneal noturna domiciliária (DPA) - Diálise Peritoneal Automática. 

Para a hemodiálise domiciliária nocturna o paciente precisa de um parceiro e ambos serão treinados para executar em este tipo de tratamento na sua casa.

O tratamento de hemodiálise noturna tem tido resultados médicos, sociais e emocionais muito positivos. Uma vez que é realizado durante a noite, o tratamento torna-se mais “invisível” na vida do doente, proporcionando uma melhoria na qualidade de vida. Ana Ventura explica que há “uma melhor tolerância ao tratamento uma vez que é mais prolongado. Por outro lado, acrescenta, há uma notória melhoria da perceção do bem-estar dos doentes”

A hemodiálise nocturna permite aos doentes, sobretudo os que ainda estão em idade activa, manterem uma máxima liberdade durante os dias, o que muitas vezes contribui para uma maior facilidade na articulação com as suas vidas profissionais.

Os doentes não referem a sensação de fadiga após a diálise mais longa enquanto que numa diálise mais curta os doentes necessitam de um descanso após o tratamento. A vantagem mais notável do processo de diálise mais longo é a mais elevada taxa de sobrevivência dos doentes, quando comparados com doentes que fazem o tratamento covencional em centros de hemodiálise.

Há fatores a considerar antes de optar pela hemodiálise noturna fora de casa e de longa duração: a disponibilidade e a motivação do paciente. Os doentes que efectuam hemodiálise nocturna num centro de diálise dependem de um transporte e da possibilidade de pernoitar no centro três noites por semana.  Uma sessão noturna chega a ser duas vezes mais longa do que uma sessão diurna – o que no entanto deve ser encarado como uma vantagem, dado que se traduz num aumento significativo do bem-estar físico e psíquico, bem como na redução da mortalidade e morbilidade. Esta opção pode, porém, ser um problema para quem não consegue dormir durante o tratamento. Durante a noite os enfermeiros podem ter de verificar e registar as pressões arteriais dos doentes assim como outros cuidados a ter.

Cada vez mais estudos sustentam que a taxa de mortalidade dos insuficientes renais, por exemplo, diminui com esta escolha. Para o estudo, realizado no âmbito de uma bolsa concedida pela European Nephrology Dialisys Institution, e liderado por Ercan Ok, da Ege University em Izmir, Turquia, 224 pacientes de diálise foram transferidos da hemodiálise diurna para a noturna. Durante um ano, numa clínica turca, os pacientes passaram três noites por semana num centro de diálise onde se encontravam oito horas sob um tratamento de hemodiálise contínuo. “Depois de um mês de adaptação, todos os pacientes dormiram durante a noite sem qualquer queixa”, refere o coordenador do estudo. Os efeitos foram comparados com os de um grupo semelhante de pacientes que continuaram a fazer diálise convencional, quatro horas por dia, três dias da semana.

Um melhor controlo da tensão arterial, nesta experiência, conduziu a uma redução em dois terços de medicação para a hipertensão arterial. Também a doença mineral óssea, característica desta população, melhorou significativamente face ao habitual. Por consequência, registou-se uma redução de 72% na medicação usada para reduzir a absorção de fósforo.

Segundo a mesma investigação, grande parte dos hemodialisados noturnos referiram um aumento no apetite. Muitos deles ficaram aptos para regressar ao trabalho, reportando uma melhoria na performance laboral e uma melhor destreza física e mental.

Porém, o estudo não escapa a certas debilidades: os pacientes não foram distribuídos aleatoriamente pelos dois métodos de diálise. Com uma média de idade de 45 anos, os pacientes eram mais jovens do que a população-tipo de pacientes da hemodiálise. Poucos pacientes mais velhos quiseram mudar da hemodiálise diurna para a noturna.

Para o coordenador do estudo, as previsões são otimistas: “Esperamos que estes dados venham a convencer toda a sociedade – incluindo médicos, pacientes, autoridades de saúde e instituições – para a necessidade de uma hemodiálise mais longa, de modo a reduzir as altas taxas de mortalidade e morbilidade”.

Um estudo preliminar, com origem no Departamento de Medicina da Universidade de Calgary, de Alberta, Canadá, publicado no ano anterior, chamava a atenção para a melhoria da qualidade de vida resultante da escolha de uma hemodiálise noturna regular. O objetivo dessa investigação era comparar os efeitos deste tipo de hemodiálise, face ao método convencional, na hipertrofia ventricular esquerda e na qualidade de vida relacionada com a saúde dos pacientes. Durante seis meses, 52 insuficientes renais foram controlados em dois centros universitários canadianos. Um grupo receberia hemodiálise noturna seis vezes por semana e outro grupo receberia hemodiálise diurna convencional três vezes por semana.

Conclusões da investigação: Se por um lado, a hemodiálise noturna regular não melhorou significativamente a qualidade de vida dos pacientes, esta modalidade foi associada a melhorias significativas em domínios específicos – nomeadamente das alterações hidroeletrolíticas, doença mineral óssea e controle da tensão arterial dos pacientes analisados. A redução ou a descontinuação de medicação para a hipertensão foi uma das consequências deste estudo nos pacientes que experimentaram a hemodiálise noturna.

Outras vantagens desta modalidade têm sendo apontadas pelos pacientes e pelos especialistas da nefrologia. Sendo a diálise mais longa, a depuração do sangue é realizada com maior eficácia do que na hemodiálise convencional e, por isso, mais toxinas são removidas. O tratamento torna-se mais suave, relaxado e menos cansativo. Com o recurso a esta modalidade, aumenta a longevidade do acesso vascular e há uma menor preocupação com as dietas ricas em fósforo e sódio. A longo prazo, há menos complicações com doenças cardiovasculares.

Publicado: portaldadialise | 2017-04-29 00:00 Última atualização: 2017-04-29 22:47:25 Fonte: Tags : Clínicas de Diálise, Hemodiálise
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