Transplante

Apesar de existirem diversos estudos que avaliam e analisam a qualidade de vida de pessoas com doença renal crónica, poucos têm abordado a qualidade de vida de doentes que foram transplantados, as suas preocupações e os novos desafios que surgem após a cirurgia, como o reconhecimento de sinais e sintomas associados à infecção e rejeição. Das poucas pesquisas, algumas identificam três factores que melhoraram a qualidade de vida das pessoas submetidas a transplante renal: redução de stress (com a interrupção do tratamento dialítico), facilitação da vida profissional e melhoria do apoio social.

No entanto, mesmo num transplante bem-sucedido, a pessoa continua a viver com uma doença crónica: as consultas hospitalares regulares são necessárias e podem gerar stress (especialmente nos primeiros seis meses, quando são mais frequentes), há sempre o medo latente de que o corpo rejeite o rim e existem doenças associadas ou factores incapacitantes que podem advir do transplante.

 

A Diabetes é uma das doenças que, para além de ser causadora de insuficiência renal, pode ser uma consequência do transplante renal.

 

O que é a Diabetes?

Actualmente, a Diabetes é uma patologia que se encontra em franca expansão, pelo que tem vindo a assumir um papel de relevo na sociedade actual, uma vez que já foi constituída como um grave problema de saúde pública a nível mundial.

Existem inúmeras tentativas de definição deste fenómeno, sendo que há quem já a caracterize como a mais recente “pandemia do século XXI”, ou até mesmo, a “doença da civilização moderna”. Em termos mais precisos e técnicos, pode ser caracterizada como um conjunto heterogéneo de situações clínicas que ocorre quando o corpo não fabrica insulina suficiente ou quando o corpo não consegue utilizar a insulina de forma adequada. A insulina é uma hormona que regula a quantidade de açúcar (glicose) no sangue.

Sendo uma doença crónica, apresenta dois tipos principais: o tipo 1 e o tipo 2. No primeiro caso, o sistema imunitário ataca as células produtoras de insulina, no pâncreas, destruindo-as. Desta forma, pouca ou nenhuma insulina actua sobre a glicose, o que faz com que surja um estado de hiperglicémia a nível sanguíneo. Pode surgir em qualquer idade mas acontece mais frequentemente na infância e na adolescência. São desconhecidas as causas desta desregulação do sistema imunitário, embora se possam apontar causas genéticas ou exposição a determinados vírus.

Na deficiência de insulina relativa, o pâncreas produz quantidades normais ou excessivas de insulina, mas o organismo não se encontra capaz de a utilizar com eficácia, pelo que os níveis de glicose permanecem elevados. Este defeito é denominado por insulino-resistência e verifica-se na Diabetes tipo 2. Este tipo de Diabetes tem vindo a ser referenciado como a forma mais frequente que esta patologia pode assumir. Usualmente, uma pessoa portadora desta patologia possui, também, outras características: hipertensão arterial, dislipidémias (colesterol elevado, triglicerídeos elevados), excesso de peso, obesidade, sedentarismo e diversos erros alimentares.

Ao longo da vida, a pessoa diabética pode vir a desenvolver uma série de complicações em vários órgãos, encontrando-se susceptível a dois tipos de complicações: agudas e crónicas. Estas complicações evoluem de forma silenciosa e, muitas vezes, já estão há algum tempo instaladas quando se detectam. Assim, de modo a reduzir os danos provocados pelas mesmas, recorre-se ao controlo rigoroso da glicémia, da tensão arterial e dos lípidos, assim como a vigilância periódica dos órgãos mais sensíveis: rins, olhos e sistema nervoso.

O tratamento da pessoa com Diabetes deve abordar a pessoa de forma global, sendo que as medidas terapêuticas têm de ter em consideração a idade, o tipo de actividade física diária, as necessidades psicossociais, o nível educacional e outros factores que se ponderem como importantes, uma vez que não existe um único tratamento para estes doentes, mas sim diversas formas de dar resposta a esta patologia.

No entanto, o tratamento tem de ser baseado em quatro partes essenciais e todas elas importantes: reeducação alimentar, exercício físico, terapêutica medicamentosa e vigilância de saúde periódica.

 

Fatores de Risco da Diabetes

  • A herança genética é um risco elevado para o desenvolvimento da doença: algumas pessoas herdam a doença, particularmente se esta tendência está nos pais ou nos irmãos.

  • A etnicidade também é um factor de risco: os americanos, africanos, os nativos do estado do Alaska, os hispânicos e os asiáticos estão entre os grupos de risco mais elevado.

  • A obesidade é um factor de risco forte para o Diabetes do Tipo 2.

  • O estilo de vida sedentário.

  • Idade mais avançada combinada com outros factores de risco (como valores anormais de colesterol ou triglicéridos).

  • Medicação de supressão imunológica usadas por receptores de transplante.

 

A diabetes e o rim

A nefropatia diabética é a causa mais frequente de insuficiência renal crónica terminal nos países desenvolvidos. Os altos níveis de glicose no sangue induzem a produção de colagénio, o que conduz ao aumento da taxa de filtração glomerular (daí a o facto de as pessoas diabéticas, no início da doença, urinarem em grande quantidade) e hipertrofia dos rins, com presença de microalbiuminúria que evolui, posteriormente, para macroalbuminúria e redução da filtração glomerular. Um dos primeiros sinais de doença renal é a presença de albumina (um tipo de proteína) na urina. E quando os rins estão afectados, não limpam o sangue de forma adequada, acumulando-se os resíduos no corpo. O corpo reterá mais água e sal do que deveria, o que pode resultar em ganho de peso e inchaço.

 

O transplante renal e a diabetes

No mínimo, 15 a 20% das pessoas que foram transplantadas a nível renal estão em risco de desenvolver Diabetes. O risco aumenta nos primeiros 3 a 6 meses pós-transplante mas estará sempre presente. Aproximadamente, 15% dos doentes transplantados renais desenvolve Diabetes num ano e se existem familiares com Diabetes tipo 2, há um risco ainda mais acentuado.

A Diabetes pós-transplante é uma complicação comum do transplante renal. A sua ocorrência está principalmente relacionada com o uso de imunossupressores. Alguns dos medicamentos que se toma para impedir que o corpo rejeite o órgão transplantado (medicamentos da supressão imunológica) podem aumentar o risco de desenvolver a Diabetes. Esta medicação imunossupressora produz efeitos tóxicos na produção de insulina e aumenta a resistência à mesma. Uma selecção cuidadosa e uma toma correcta dos imunossupressores são cruciais para prevenir esta doença.

Entre os fármacos utilizados no pós-transplante, os corticosteróides, a ciclosporina e o tacrolimus (estes dois últimos imunossupressores) são os mais responsabilizados pelo aparecimento da Diabetes. É conhecido que os corticosteróides induzem a resistência a insulina, de modo muito rápido. A ciclosporina e o tacrolimus estão relacionados com a toxicidade directa das células produtoras de insulina, sendo o tacrolimus cinco vezes mais diabetogênico que a ciclosporina.

 

O desenvolvimento de Diabetes tem sido associado à redução da sobrevida do enxerto e da pessoa transplantada.

 

Estas pessoas que foram transplantadas devem estar ainda mais alerta face aos sinais e sintomas da Diabetes: vontade de urinar frequentemente, muita sede, muita fome, cansaço extremo, formigueiro ou dormência das mãos e pés, alterações na visão, irritabilidade e perda de peso inesperada.

Apesar de a pessoa estar em risco, existem formas de tentar prevenir o aparecimento da doença. Se a pessoa tem excesso de peso, a título de exemplo, é importante reduzi-lo, de modo a diminuir o risco de desenvolver a doença, controlando a ingestão de carbo-hidratos (como o arroz, massa, pão, batata e fruta) e de gorduras. Deve dar-se preferência às carnes magras e remover-se a gordura visível e a pele, optar pelo peixe, evitar a manteiga e lacticínios gordos, não ingerir mais do que 3 a 4 ovos por semana e limitar o consumo de sal e açúcar. Também deve haver uma avaliação regular da pressão arterial, de forma a preservar a função renal e evitar as doenças cardiovasculares.

O exercício físico é um tratamento importante, quer como forma de controlar o peso, quer como redutor do stress. Começar um programa regular de exercício físico pode ser um grande desafio, especialmente se a pessoa é sedentária, mas nunca é tarde para começar. É essencial que alguém qualificado prescreva um esquema de exercícios e que haja uma avaliação médica anterior ao início da prática desportiva. O exercício físico regular proporciona mais energia, tonifica os músculos, aumenta a resistência cardíaca e pulmonar e é um óptimo antidepressivo.

 

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Publicado: virginia | 2016-07-18 18:28 Última atualização: 2017-12-03 13:38:10 Fonte: Tags : Diabetes, Transplante
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Virginia Gonçalves

 

Enfermeira no Serviço de Otorrino, Oftalmologia e Urologia do Centro Hospitalar entre Douro e Vouga

Amante de uma vida saudável e do exercício físico, não descura a família, os amigos, os livros, as viagens, a música e a sua mais recente paixão: Crossfit.

 

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